25 de abril | vento forte
por cafira zoé








[ao final do texto você encontra um imagiário com brutos da viagem do Oficina em 2024 para Portugal e Cabo Verde e outros documentos dos arquivos da Companhia, referentes a Revolução dos Cravos e a Independência de Moçambique]
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"O mais importante não é eles terem tentado matar-nos lentamente, o mais importante é a recusa dessa morte lenta. No Tarrafal nós reinventamos a vida, sempre!"
– Jaime Ben Hare Schofield
milhares de células nascendo e morrendo todos os dias dentro do corpo humano são uma insurreição, dentro do corpo dos animais e das plantas também, a fotossíntese, um rio arrebentando os bueiros em uma cidade infarta de concreto, a via láctea, uma supernova explodindo, um vulcão em erupção, e adormecido, cabras subindo e descendo precipícios, ovelhas se alimentando calmamente diante de um monumento fascista erguido para a punheta do poder colonial, raízes de árvores trincando calçadas, uma floresta inteira, um manguezal, o mato crescendo no meio de um antigo campo de concentração, os pássaros entrando e saindo e fazendo ninho e nascendo e cantando e atravessando as grades de um antigo campo de concetração com suas asas, a aranha fazendo sua teia, o vento lambendo as flores que dançam no meio do antigo campo de concentração, as palavras nas paredes, os desenhos, as paredes ruindo, a ferrugem, o mato subindo, a vegetação vingando o tempo, comendo o espaço... insurreição.
brutos de portugal e cabo verde | câmeras de sylvia prado e cafira zoé
“pelas pedras do vulcão ainda quentes e que renascem preciosas
pelos olhos dos camaradas brilhante e vagamente sanguinolenta"
– Aimé Césaire, cadernos de poesia
o campo de concentração de Tarrafal é o abcesso fechado da ditadura portuguesa, monumento ao extermínio da presença, ícone da colonialidade imposta ao corpo e à matéria viva do pensamento dinâmico, em movimento. Tarrafal é, a um só tempo, símbolo e sintoma de uma opressão fascista-patriarca-capital-colonial-racista-supremacista etcetera etcetera... transformado em museu pelas lógicas estranhas de preservação da memória, para que não se repita, quando tudo nele diz: seu destino é a ruína...
A Plantation, os holocaustos coloniais, o tráfico de escravizados, Auschwitz, o Hospital Colônia de Barbacena, as prisões e cárceres neocoloniais espalhados pelo mundo – todas as prisões são prisões políticas – Gaza, a Amazônia em chamas, o Brasil país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, o genocídio de povos pretos, as guerras neocoloniais insufladas pelo capital especulativo do hemisfério norte, a xenofobia e a perseguição aos refugiados, o genocídio dos povos indígenas, ciganos, dos povos lgbtqia+…, dos povos mulher ao redor do mundo, o tráfico de mulheres e crianças, o trabalho análogo a escravidão que é trabalho escravo modernizado pela palavra análogo, Gaza outra vez... quantos campos de concentração foram e continuam a ser erguidos como monumentos físicos, concretos, escancarados, simbólicos, discretos, e nem por isso menos agressivos, dedicados ao extermínio de povos, pensamentos, corpos, subjetividades, espécies, multiplicidades e modos de vida considerados subalternos? quantos mais se levantam a cada vez que alguém diz que não podemos comparar? que não é a mesma coisa?
"O mais importante não é eles terem tentado matar-nos lentamente, o mais importante é a recusa dessa morte lenta. No Tarrafal nós reinventamos a vida, sempre!" essa frase foi dita por Jaime Ben Hare Schofield, cabo-verdiano, preso em 1967 no campo de concentração da ditadura portuguesa de Salazar, em Tarrafal. a fala aparece no documentário Memórias do Campo da Morte Lenta, de Diana Andringa.
25 de abril, 52 anos da Revolução dos Cravos em Portugal. símbolo de uma luta mais ampla, transgeográfica, atravessada pelos ventos da insurreição que sopravam do continente africano e pelas monções quentes por liberdade que atormentavam o solo português. uma virada vegetal, vermelha, com cravos empunhados como espadas – grandes protagonistas da sua força visual, uma revolução que não se encerrava em si mesma, não era início, nem fim, mas o meio, o cruzo, parte da confluência de lutas anticoloniais, guerras de independência e levantes antifascistas.
esse abalo sísmico contundente, empreendido por um arranjo de forças operárias, socialistas, comunistas, culturais, anticoloniais, populares, em composição com um levante de militares insurgentes, derrubou a ditadura Salazarista.
o phoder da presença, diante da presença do poder, como um vulcão em estado incontestável de ebulição, precipita tudo, catapulta tudo, no desejo radical de demolição das hegemonias coloniais. a ancestralidade de tudo importa, a memória de todas as lutas por libertação opera como uma grande sinfonia harmônica e dissonante, fascinante, complexa, desarmônica, mas nunca monocórdica.
em 1974 uma parte da Companhia Teat(r)o Oficina, à época comunidade Oficina S.am.b.a (sociedade amigos Brasil animações), entre eles Zé Celso e Celso Luccas, partia para o exílio em Portugal, dando testemunho do estado de sítio da sua própria terra, ao mesmo tempo em que seriam testemunhas dos acontecimentos políticos históricos em Portugal (Revolução dos Cravos), e em Moçambique, com o movimento de independência. ambos os acontecimentos foram documentados e transformados mais tarde em 2 filmes fundamentais do cinema pós-independência, que catapultaram a própria linguagem estético-política do Oficina, são eles: O Parto e 25.
outra frente de atuação do Oficina permaneceu na Jaceguay 520, ativando diferentes caminhos da reexistência, mais sutis, mais micro e cosmopolíticos: a cozinha da Zuria, alagoana, capricorniana, que alimentava os trabalhadores do Bixiga e os artistas da Companhia, alimentando a luta. essa foi uma prática de grande vitalidade nesse período. Ao lado de Zuria, Surubim Feliciano da Paixão (artista plástico e cirandeiro), Sandy Celeste (cantora), Edgar Ferreira (cantor, compositor), artistas de diferentes estados do nordeste que, ligados na ancestralidade do movimento dos Sertões no Oficina, seguraram o céu na Jaceguay 520, garantindo o chão da volta do exílio em 1979, quando Oficina Samba, trazendo no corpo a memória vivida das revoluções dos povos, revoluções dançadas, cantadas, encontra Os Sertões no Bixiga e, juntos, mudam radicalmente a linguagem e a estética do Teat(r)o Oficina, apontando a flecha para o Carnaval do Povo e o protagonismo dos coros.
“se nesse momento nós estamos aqui, nessa sala, e o governador Montoro está assinando essa desapropriação do Oficina, se algum corpo físico a que se deve isso, algum trabalho com imaginação, algum axé, alguma força, está aqui: Zuria! Do Teatro Oficina, a cantina! Durante 14 anos, quando os atores, devido à repressão, à violência, tiveram que ir abandonando tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo… quem segurou, quem ficou lá segurando foi Os Sertões, é por isso que a homenagem aqui, os grandes homenageados são Os Sertões, aquele canudos, Zuria, que ainda agora, com o oficina em obras, tem ali sua cantina, diariamente, transando todo o bairro…” – Zé Celso (anos 80) no doc A Máquina do Desejo, de Lucas Weglinski e Joaquim Castro
REVOLIÇÃO! Lição de voltar a querer
em 2024, parte da Companhia (Camila Mota, Letícia Coura, Vick Nefertiti, Sylvia Prado, Fefê Camilo, Joel Carlos, Ayomi Domenica e Cafira Zoé) atravessou o Atlântico em uma viagem de encruzilhada com os territórios de Portugal e Cabo Verde, a convite do programa antropocênica.
há quem é dado o direito de inventar mundos? quais origens de mundo conhecemos? que mitos constituem nosso inconsciente colonial? que outros mundos já existem entre nós? imaginar um mundo é direito ou privilégio?
a cosmologia de tudo importa.
o teatro tem suas próprias cosmologias, coletivas, ancestrais e futuras, não apenas gregas, mas indígenas, pretas, antigas, de festas, e ritos, a teatralidade é um estado de estar vivo, na vida, e atuar ritualmente, desassombradamente, no mundo. o teatro tem suas sabedorias oraculares, feiticeiras, de atuar no presente, no corpo, nas células, na poesia, na ação! o Teat(r)o Oficina tem suas próprias cosmologias, ancestralidade de mistura, de encruzilhada, de feitiçarias, gestos e teatralidades que funcionam como tecnologias, ferramentas e armas. o teatro, a poesia e a imaginação, são línguas de força e linhas de fuga, criadas para fazer fugir o massacre, fazer correr os fascismos, fazer morrer supremacismos.
em Tarrafal escutamos o chão com os instrumentos que o teatro nos dá, auscultamos as paredes, o vento, o movimento de cada ser vivo, seja gente, seja bicho, seja planta, seja inseto, seja humano… e ouvindo o vento, cantamos com ele.
a poesia é a violência que faltava: nunca jamais abandoná-la!
a luta foi uma palavra paridade desde que o mundo existiu... lutar como o vento, semear como o vento.
25 de abril de 2026
celebramos as insurreições corais e a transformação permanente de todos os Tabus em Totens. no Tarrafal e em toda parte: NÓS REINVENTAREMOS A VIDA, SEMPRE. A vida não está destinada ao fracasso. Ela sempre encontra caminhos.
TEATRO É TERRITÓRIO
VENTO FORTE
"é uma coisa que define bem o teatro. Vento forte era soltar as amarras, sair voando, ar, ar... imaginação”
– Zé Celso, Passando a Limpo (1980)
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A minha poesia sou eu
… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta) …
Ama as Poesias de todo o Mundo,
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.
– Amílcar Cabral
*** o campo de concentração de Tarrafal foi perversamente erguido na Ilha de Santiago, Cabo Verde, pelas mãos dos presos políticos em 1936, obrigados pela ditadura Salazarista a edificar o símbolo do seu próprio massacre. conhecido como Campo da Morte Lenta, funcionou como campo de concentração de 1936 a 1954 para presos políticos da ditadura portuguesa (operários, camponeses, marinheiros, comunistas, socialistas…). foi fechado em 1954 e reaberto em 1961, para presos políticos dos movimentos de independência nos países africanos, colônias de Portugal. no dia 25 de abril de 1974, Revolução dos Cravos, as notícias da queda do regime fascista português começaram a chegar pelo rádio. no dia 1º de maio de 1974, milhares de pessoas foram para a frente do campo de concentração de Tarrafal exigindo a libertação dos prisioneiros, ao lado de soldados da revolução que comunicaram a queda do antigo regime. os portões foram abertos e os presos políticos caminharam em direção à multidão em festa.
IMAGIÁRIO
[câmera de cafira zoé]










cafira ❤️
Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, fonte de inspiração constante pulsante a todo instante.
Jorra alegria luz e canção sobre a dor que brota
transforma tudo em poesia
arte de viver em plena pulsão
em estado de criação. Love master.
Amo vcs.